O GRANDE INÍCIO – PARTE 12

De Baal para Zeus e daí para Satanás: A Mudança de Rostos do Deus-Trovão

Baal_thunderbolt_Louvre_AO15775
Estátua no Louvre da antiga cidade de Ugarit mostrando Ba’al com seus característicos bastão e trovão nas mãos

Ba’al era o principal inimigo de Yahweh no Velho Testamento. Alguns podem até argumentar que ele foi mais um vilão na Bíblia do que Satanás, o qual só foi mencionado em quatorze versículos do Velho Testamento, nos livros de 1 Crônicas, Jó e Zacarias. Ba’al, por outro lado, aparece 106 vezes em 88 versículos (incluindo nomes pessoais e de lugares, como Baal-zefom).

Ba’al chega no Êxodo e ainda fica lá pelo Novo Testamento. Jesus discute sobre ele com os Fariseus (vejam em Mateus 12:22-28).

Ba’al não é um nome, é um título. Ele significa “senhor”, da mesma maneira que os cristãos normalmente dizem Senhor (e nossas Bíblias escrevem Senhor) ao invés de dizer Yahweh ou soletrar YHWH. Isso é muita arrogância quando pensamos nisso. E Ba’al não era o único; com o passar do tempo, o deus chefe da Babilônia, Marduk, veio a ser conhecido como Bel, que também significa “senhor”.

Ba’al teve uma carreira longa. Ele não é conhecido como uma deidade ativa no nosso mundo de hoje, por melhor que seja nosso conhecimento. Devem haver uns poucos aqui e ali que tentam recriar a antiga religião dos antigos cananeus, mas como velhas divas do pop, os velhos deuses se reinventam com o passar do tempo e a mudança das pessoas. Já vimos como a Inanna suméria se tornou a Ishtar babilônica, a Astarte semita, a Afrodite grega e a Vênus romana.

Com o passar do tempo, Ba’al substituiu o nome original do deus-trovão do oeste semita Hadad (ou Haddu), que também era chamado Adad / Addu pelos acadianos. Ba’al também era identificado com o deus hurriano Tessub, o deus hitita Tarhunt (ou Tarhun), o deus urartiano Teisheba, o deus sumério Iskur, o deus amorreu Amurru (incorretamente, quando aparece), e outros.

É claro que Ba’al é melhor conhecido como Zeus, o Júpiter dos romanos.

As primeiras manifestações desses deuses-trovão fora Iskur (notem que o “s” tem som de “sh”). No entanto, Iskur era uma deidade menos no panteão Sumério. Isso é lógico, pois numa terra que a maior parte é deserto, um deus de trovões e uma chuva para molhar o solo não era tão importante como Enki, o qual controlava as águas frescas do Tigre e Eufrates. A Irrigação era muito mais importante do que a chuva para o crescimento das plantações no sul da Mesopotâmia. Mais ao norte, onde a chuva era a chave para a agricultura, Iskur tinha um papel maior no panteão.

O deus-chefe Enlil seu filho, o deus da guerra Ninurta, também tinham características de um deus-tempestade. Isso deixou Iskur como se fosse uma mera imitação dos outros, um super-herói de terceira classe num universo de revista em quadrinhos. Acreditava-se que ele era o filho de Anu, embora algumas tradições dissessem que Enlil fosse o seu pai. Isso pode significar que Iskur não seria uma deidade nativa da Suméria, mas uma deidade importante dos vizinhos sumérios que falavam em idioma semita. Como deus patrono de Karkara, uma cidade menor perto de Uruk no sul da Mesopotâmia, o centro de culto a Iskur não tinha o glamour político que o elevasse a um ranque superior no panteão, como aconteceu mais tarde com Marduk na Babilônia.

As primeiras evidências escritas do culto a Iskur vieram das cidades de Lagash e Adab, em meados do terceiro milênio a.C. Adab era perto de Karkara, local do templo de Iskur, a Casa das Grandes Tempestades. Infelizmente, as ruínas de Karkara ainda não foram descobertas, então não sabemos muito sobre seu culto ou as tradições locais sobre ele. Mas, baseado em orações e rituais que têm sido preservados, parece que Iskur, como a maioria dos deuses e deusas mesopotâmicos, pode ter sido bom ou mal, dependendo do seu humor. O deus-tempestade trazia a chuva necessária para as plantações sobreviverem, mas ele também podia destruir os campos com ventos, granizo e dilúvios.

Ele primeiramente apareceu sob o nome de Hadda, em Ebla, ao redor de 2500 a.C., e como Adad nos textos Acadianos Antigos, o período da história que começou com o império de Sargon o Grande, ao redor de 2330 a.C. Sabemos que ele é o mesmo, pois o logograma sumério para Hadda/Adad era o mesmo usado para Iskur. Como deus das águas do céu, Iskur era, algumas vezes, adorado como irmão gêmeo de Enki. Isso pode ser um exemplo inicial do motivo para “deuses gêmeos” na antiga mitologia. Algumas vezes eles são gêmeos irmão e irmã, tal como Apollo e Artêmis; às vezes são gêmeos divino-mortais, como Castor e Pollux; e às vezes, como nesse caso, um par de irmãos, um mais importante do que o outro, pelo menos dos dias primórdios. Até o início do 2º milênio a.C., isso não teria sido um elogia à Enki, o deus responsável pela água fresca do abzu e das leis fundamentais da civilização, o mes, ser comparado com uma deidade menor como Iskur.

Iskur-Adad, mais tarde como Ba’al, teve um papel chave na cosmologia da Mesopotâmia pelos próximos 2500 anos. Sua importância para as culturas da região cresceu com a influência política dos Amorreus, os quais introduziram Iskur na Suméria, atingindo seu pico no 2º milênio a.C. e durando até o tempo de Jesus.

Em Mari, que estava localizada no Eufrates a cerca de 75 milhas ao sudeste da moderna cidade de Deir ez-Zor, um poderoso, mas curto reino Amorreu, cresceu das cinzas de um velho estado que havia sido esmagado por Sargon o Grande. O nome Haddu frequentemente aparece nos textos encontrados em Mari ao longo de Dagan, o deus dos grãos (contrariamente à crença comum, Dagan/Dagon nunca foi um deus peixe), e Itur-Mer como um dos três grandes deuses do reino de Mari.

Com o controle político da Mesopotâmia mudando da Acádia para Ur, e então para a Babilônia entre 2150 a.C. e 1900 a.C., os poderosos reinos amoritas na Assíria, Mari e Yamhad (a moderna Aleppo, na Síria) emergiram juntamente ao antigo império babilônico. Ao mesmo tempo, as identidades dos deuses-tempestade foram gradualmente mudando do Iskur sumério para o Adad acadiano e sua importância no panteão foi crescendo. Nos tempos de Hammurabi, que levou a Babilônia à sua maior extensão como império e poder, Adad foi firmemente estabelecido entre os grandes deuses da Mesopotâmia. Enquanto isso, o leão-dragão foi substituído pelo búfalo como o animal associado a Adad, um símbolo mais familiar para aqueles que conhecem o Ba’al da Bíblia.

Enquanto os textos da cidade-estado cananeia de Ugarit indica o Monte Zafon como o local do palácio de Ba’al, a capital de Yamhad, Halab (Aleppo), ficou conhecida através do antigo Oriente Próximo como a Cidade de Hadad. O santuário do deus-tempestade ali, que se situa numa grande cidadela no velho quarteirão de Aleppo, data do Início da Idade do Bronze, meado do terceiro milênio a.C. (cerca de 2500 a.C.), e esteve em funcionamento até o 9º Século a.C.

A importância do deus-tempestade de Aleppo é destacada pelas evidências do seu culto através da Mesopotâmia e do Levante, de Nuzi, a leste do Rio Tigre, até Hattusa, capital do império Hitita, no que é agora conhecida como a parte centro-norte da Turquia. No período da antiga Babilônia (1700 a.C.), Hadad foi, além de Marduk, um preeminente deus na Mesopotâmia. Emissários de Elão, hoje o noroeste do Irã, viajavam pelo menos uma vez para Halab para dar um arco de presente a Hadad.

Baal_Ugarit_Louvre_AO17330Yamhad certamente aproveitou os benefícios da presença do deus-tempestade em seu meio. O rei era chamado de “o amado de Hadad” e o reino era a Terra de Hadad. O deus concedia o reinado e assinalava o território dos reis, até mesmo àqueles fora das fronteiras de Yamhad. Antes dos amorreus varrerem o sul da Mesopotâmia e tomar o controle dos sumérios nativos no início do 2º milênio a.C., o poder era restrito a Enlil. (Depois do surgimento da Babilônia, várias deidades além de Hadad, incluindo Marduk, Dagan e o deus-lua Sin, se firmaram como autoridades fazedoras de reis em diferentes lugares e tempos).

Se você é um leitor da Bíblia, reconhecerá que esse é um outro pedaço de propaganda do reino espiritual. As Escrituras nos dizem que “não há autoridade (governante), exceto Deus, e essas que existem foram instituídas por Deus” (Romanos 13:1).

Acredita-se que as terríveis armas forjadas para Ba’al, pelo deus artesão Kothar-wa-Khasis (Habilidoso-e-Sábio, ou Artesão-e-Inteligente), para derrotar o deus do mar Yam, eram mantidas no templo de Hadad em Aleppo. Cartas encontradas em Mari confirmam que as armas, com os nomes de Yagrush (Caçador) e Aymur (Direcionador), foram transportados de Aleppo para a cidade de Terqa por Zimri-Lim, o rei de Mari, durante o período de Hammurabi (1775 a.C.), e colocadas no templo do deus-chefe de Mari, Dagan.

Isso é fascinante em vários níveis. Primeiro: é claro que as armas eram verdadeiros objetos físicos que poderiam ser trazidos e mostrados durante cerimônias. Segundo: as armas aparentemente tinham alguma função ritualística. Se as armas retornaram a Aleppo nós não sabemos, mas levanta um pensamento perturbador: Isso é mera especulação, mas será possível que essas armas, seja lá o que forem, ainda existem, estão em Aleppo hoje, e de alguma forma estejam ligadas espiritualmente à violência selvagem da atual guerra civil na Síria?

A aproximadamente 80 milhas a oeste dessa cidade, o Monte Zafon, o local do palácio de Ba’al, era conhecido pelos gregos como Monte Kasios. O deus-tempestade (ou trovão) dos gregos, Zeus, foi naturalmente identificado com Ba’al Hadad, e o aspecto de Zeus que reinava ali era conhecido como Zeus Kasios (Júpiter Casios para os romanos).

Mencionamos anteriormente que o Monte Zafon/Kasios foi o local da épica batalha entre Zeus e o monstro do caos, Typhon, que é um claro paralelo à vitória de Ba’al sobre Yam e seu seguidor, o dragão do mar, Lotan (o nome cananeu para Leviatã).

A vitória de um deus sobre o monstro do caos representado pelo mar ou, como o estudioso Robert D. Miller o chama, o mito do deus-trovão-derrota-o-dragão, é um tema que remonta lá atrás à Suméria. Os conflitos Zeus-Typhon e Ba’al-Yam eram precedidos pelo mito Hitita de Tarhunt e o dragão Illuyanka, o mito indiano de deus Indra derrotando o dragão Vrtra (com um trovão, naturalmente), e antes disso, a narrativa de Marduk e Tiamat no épico da criação babilônico, o Enuma Elish.

Na lista de deuses encontrada em Ugarit, que serve como um tradutor entre o ugarítico e o acadiano, Tiamat se iguala ao inimigo de Ba’al, Yam. Depois de sua vitória sobre Tiamat, Marduk, assim como Ba’al, foi declarado rei dos deuses e teve um palácio construído em sua honra.

Alguns estudiosos têm observado que, devido a não haver nenhuma cópia do Enuma Elish que esteja em tábuas anteriores ao Cilindro de Baal encontrado em Ugarit, e que essa provavelmente não tenha se originado há mais de duzentos anos antes do Ciclo de Baal, o mito do deus-trovão-derrotando-o-dragão deve ter viajado para a Babilônia vindo da região ao redor do Monte Zafon e não, como geralmente se assume, de outra maneira. Isso faz muito sentido. É muito mais provável que as pessoas perto do Mediterrâneo tenham imaginado o mar como um oponente monstruoso dos deuses do que os habitantes da Mesopotâmia árida central.

Como mencionamos antes o deus-trovão/tempestade sumério Iskur pode ter sido muito bem importado dos semitas. Os amorreus estiveram em contato com o sul da Mesopotâmia desde o início. Com a crença de que o deus-trovão era o rei dos deuses, a narrativa do seu triunfo sobre o caos deve ter viajado de oeste a leste com as caravanas dos amorreus. É claro que esses contos eram mais um jogo psíquico do Inimigo para dizer que foi dele a vitória que Yahweh teve sobre o Leviatã e o caos.

E há outra conexão ligando todas essas histórias: já previamente mencionamos uma carta a Zimri-Lim, o rei de Mari, confirmando ter recebido as armas de Hadad no templo de Dagan em Terqa. O rei também recebeu uma mensagem enviada pelo próprio deus através de um de seus profetas:

Assim diz Adad: te trago de volta ao trono do seu pai, de volta. As armas com as quais lutei contra Tiamat eu as dou a ti. Com o óleo da minha amarga vitória eu te abençoo, e ninguém poderá se opor a ti.

Uma Carta Profética de Adad para Zimri-Lim (A.1968)

A palavra traduzida de “Tiamat”, têmtum (uma forma variante de Tiamat), é um cognato da palavra hebraica tehom, que aparece logo no segundo versículo da Bíblia:

No início, Deus criou os céus e a terra. E a terra era sem forma e vazia, e a escuridão cobria a face do abismo (tehom). E o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas.

Gênesis 1:1-2

Ligar a deusa suméria do caos, Tiamat, a “o abismo” de Gênesis 1:2, coloca o versículo sobre um novo entendimento. Por que o Espírito de Deus pairava sobre as águas? Seria possível que Yahweh derrotou um rebelde divino antes de criar Adão e Eva? E ter mandado Tehom/Tiamat para o abismo fez com que Seu Espírito permanecesse para garantir que o monstro ficaria ali?

Então, a criação do mundo como está gravada em Gênesis está ligada ao Enuma Elish, o Ciclo de Baal, e os mitos do deus-trovão-derrotando-o-dragão da antiga Anatólia e Grécia, e provavelmente o contexto obscuro entre Set e Apophis, o mito indiano referenciado acima, as batalhas entre Thor e Jormungandr, e outros. Não há surpresas de que os estudiosos geralmente acreditam que a narrativa bíblica tenha sido inspirada pelo mito babilônico, ao invés de ter sido de outra maneira: como já dissemos, um jogo psíquico.

Lembrem-se, a narrativa escrita mais antiga não é necessariamente a que seja verdadeira.

Anúncios