DORES DO PARTO?

METADE DOS AMERICANOS ACHA QUE AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS SÃO UM SINAL DO APOCALIPSE

O que uma nova reportagem em teologia e aquecimento global significa para o público

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Nevemageddon, nevepocalipse, nevezilla, só neve. Supertempestade Sandy, desaparecimento de praias, e mais. Furacões Isaac, Ivan e Irene, com seus primos Rammasun, Bopha e Haiyan.

A parada da mudanças climáticas e eventos extremos de temperatura ao redor do mundo desde 2011 têm sido incríveis. Talvez isso seja parte do porquê, como reportou o Instituto de Pesquisa das Religiões Públicas na sexta-feira, “O número de americanos que acreditam que os desastres naturais são evidências do apocalipse tem aumentado de alguma maneira nos últimos anos.”

Agora em 2014, estima-se que quase metade dos americanos, 49%, disseram que os desastres naturais são sinais do “fim dos tempos”, como está descrito na Bíblia. Isso é um grande crescimento, frente aos 44% de 2011.

Esse pensamento é mais prevalente em algumas comunidades religiosas do que outras. Os evangélicos protestantes brancos, por exemplo, são os que mais acreditam nisso do que qualquer outro grupo, e ainda acham que tem alguma culpa quanto à mudança climática (era permitido aos participantes escolherem as duas opções se quisessem). Protestantes negros estavam logo atrás dos evangélicos brancos em termos da compreensão do apocalipse, mas também eram o grupo que mais acreditava nas mudanças climáticas também. Como previsto, os que não tinham prática religiosa ficaram em último, sem acreditar que as supertempestades são apocalípticas, mas mesmo deles, um terço do grupo disse que esse são sinais do fim dos tempos.

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Esse é um estudo interessante para vermos como as crenças religiosas afetam a maneira de vermos os eventos atuais científicos, mas também possuem implicações em como as pessoas veem a política pública e sua responsabilidade pelo mundo natural. Se Deus irá interceder fazendo os humanos pararem de destruir a Terra, como acreditam 39% dos que responderam, por que a necessidade de fazer leis que limitem as emissões de carbono? Ou, devido a isso, por que dirigir menos, ou comer menos carne, ou mudar qualquer comportamento que afete o meio ambiente?

Além do mais, uma grande parte dos americanos não acha que os humanos são responsáveis pelas mudanças na temperatura e no clima da terra, acreditem eles ou não no envolvimento de Deus. A grande maioria dos que responderam disse que eles não acreditam que a temperatura da terra está subindo, ou até mesmo acreditem, mas não pensam que isso esteja acontecendo por outra razão que não seja a atividade humana. Menos de um terço dos que responderam disseram que eles estão “muito preocupados” sobre as mudanças climáticas, e metade disse que “não está muito preocupado” ou “despreocupado”. Uma pesquisa de 2014 realizada pelo Pew Research Center obteve resultados um pouco diferentes: nela, 61% dos americanos concordavam que a temperatura da Terra estava subindo, e desse grupo, 40% atribuía o aquecimento à atividade humana.

Mas no geral, esse não apenas um tópico que os americanos parecem priorizar. Na nova pesquisa do PRRI, os participantes relataram que as mudanças climáticas são menos importantes do que muitos outros problemas, incluindo: desemprego, desigualdade social, saúde, défice, imigração e reforma educacional.

Na verdade, a visão das pessoas sobre a existência e a importância das mudanças climáticas não são as mesmas de suas visões sobre o meio ambiente, e isso é refletido em todas as comunidades religiosas que estiveram incluídas na pesquisa. A grande maioria dos Judeus, principais linhas Protestantes, brancos e Católicos Hispânicos e sem afiliação religiosa concordam que Deus espera que as pessoas cuidem dos animais, plantas e do planeta. Mas 43% dos protestantes negros e 46% dos evangélicos brancos disseram o contrário: a Terra, dizem eles, foi feita para o uso da humanidade.

Essa mordomia da Terra é um assunto teologicamente complexo. A Bíblia tem muitas passagens lindas sobre as maravilhas da criação, desde os Salmos ao Livro de Jó. Mas mesmo no início de Gênesis, outras passagens permanecem numa tensão sobre a ideia de como os humanos deveriam moldar suas civilizações se preocupando com o ambiente. “Frutifica e multiplica-te”, lemos na Bíblia. “Encha a terra e subjugue-a, tendo domínio sobre os peixes do mar e sobre os pássaros do céu e toda criatura viva que se mova sobre a Terra.” Isso poderia ser interpretado com o significado de que os humanos poderiam ser capazes de usar as reservas da terra sem limites, ou que esse “domínio” viesse com responsabilidade. Lendo assim, isso pode teoricamente moldar a forma como entendemos as mudanças climáticas.

Se virmos os humanos como governantes naturais da terra, imaginamos que não será prioridade pesquisarmos energias renováveis ou extrair petróleo de maneira amigável. Mas talvez alguns evangélicos e outros que veem os sinais do fim dos tempos apenas acreditem que os eventos de hoje já tenham sido escritos:

E iraram-se as nações, e veio a tua ira, e o tempo dos mortos, para que sejam julgados, e o tempo de dares o galardão aos profetas, teus servos, e aos santos, e aos que temem o teu nome, a pequenos e a grandes, e o tempo de destruíres os que destroem a terra. Apocalipse 11:18

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